02 de Novembro (Carta aos Antepassados)
Por julio Caudo velho
Não temos mais direito algum
Mas temos algo em comum
Um homem só não faz verão
Essa terra já tem dono
Mas rei morto é rei posto
E aqui os filhos pagam aluguel
Ninguém mais respeita nada
Escravidão regulamentada
Água e luz cara e racionada
Dignidade é pra classe alta
Dias vêm, dia vão, no presídio não há vagas
Somos prisioneiros em nossas casas
Me alimento uma vez por dia
E tenho cinco filhos com a minha cara
As crianças desnutridas,
Aposentado em fila de hospital
Humorista acha graça
Mas somos campeõs no futebol
Mais uma propaganda até a próxima eleição
Nossos representantes onde estão
Na loja de automóveis importados
Shopping centers com ar condicionado
Nos restaurantes de frutos do mar
Pagar impostas e fazer um carnaval
Olha os ladrões de gravatas, banqueiros, magnatas
Empreiteiros do Congresso Nacional
Será que existe alguma vida além da vida
Para criança que olha distraída
Para o velho que avança o sinal
No malabares do menino de rua
Das universitárias prostitutas
Dos garotos de Aluguel
Há tanta gula, tantas bocas, tanta fome
Há engodo, tanto jogo e olho grande
Quantas más noticias nos jornais
Há tanta terra, tanta farpa, tanta multa
Há tanta guerra, tanta farda, tanta culpa
Tanto sexo, tantos animais
Na esquina te mmercado clandestino
Câmbia negro, internet e cassino
já voltou a luz na igreja do Senhor, meu Deus, nosso Senhor
O mundo está por um fio
O mundo está por um fio
O velho mundo, o novo mundo
Sempre o mesmo mundo que existiu
Somos reféns da justiça sem moral
Somos reféns do consumo social
Vamos deixar a praia e voltar pra favela
Somos reféns do distrito industrial
Somos reféns da tortura marginal
Vamos deixar a praia e voltar pra favela
O mundo está por um fio
O mundo está por um fio
O velho mundo, o novo mundo
Sempre o mesmo mundo que existiu…
